Comentário: Sombras da Noite

O novo projeto de Burton tem vários erros, mas consegue divertir o público. Também há spoilers na escuridão

Para quem já conhece Tim Burton (há alguém que não conhece?), sabe que existe uma receita pronta para quase todos os seus filmes. Esta receita consiste em um lugar e atmosfera góticos + personagens estranhos + Johnny Depp em um personagem mais estranho ainda. Sombras da Noite foi feito com esta receita mas, dessa vez, ele exagerou um pouco em alguns “ingredientes”.

Depp apresentou o projeto de adaptar a série Dark Shadows para Burton, e os dois, fãs da série televisiva, abraçaram a ideia, e batalharam (cof) para trazê-lo às telonas. Tentando ser o mais fiel possível ao seu material original, Burton erra ao esquecer que estamos diante de um filme, não de uma série. Exagerando no tom televisivo e nos personagens caricaturais (embora estejam divertidos aqui, é melhor evitá-los), ele entrega um trabalho preguiçoso, que se preocupa apenas com o visual e deixa de lado o conteúdo.

Falando no visual, é nele onde o filme mais acerta. A direção de arte e os figurinos são competentes ao retratar Collinsport nas duas épocas do filme, com um destaque maior para o figurino durante 1972. A fotografia de Brunno Delbonnel (de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Harry Potter e o Enigma do Príncipe) apresenta mais um bom trabalho aqui, embora exagere um tanto na escuridão presente no início do filme, depois encontrando uma iluminação mais apropriada e sempre usando tons mais voltados para o cinza e roxo, passa perfeitamente o clima sombrio/precisa que o filme precisa. A maquiagem deixa a desejar, fazendo um trabalho apenas aceitável. Os efeitos visuais cumprem o seu papel satisfatoriamente, mas não creio que alguém esperava mais que isso.

Se em alguns de seus trabalhos, Burton dava uma leve escorregada ao não desenvolver alguns personagens, aqui ele realmente se joga no chão. Dá para contar no dedo quantos personagens tiveram um desenvolvimento, pois só o de Depp recebeu o tratamento que deveria; os outros vem e vão sem quase nenhum aprofundamento, e os que existem, são bem rasos. Não sei se isso foi “culpa” da fidelidade à série ou é exclusivo do filme, de qualquer forma, é vergonhoso.

Sendo um iniciante no cinema, Seth Grahame-Smith entrega um roteiro pobre, cheio de resoluções fáceis e bastante previsível. Mas nem tudo é ruim, alguns diálogos são muito bons, como aquele entre Collins e Bouchard, e as conversas durante as refeições na mansão dos Collins.

O elenco entrega um trabalho louvável, principalmente levando em conta a forma como este é usado. O destaque vai para Depp, que entrega um personagem pouco afetado e carrega o filme com bastante talento. Eva Green também está ótima com a bruxa Angelique Bouchard, a transformando em uma divertida caricatura da mulher fatal. Os outros estão bem, como Pfeiffer, (que chama mais atenção por ter uma forte presença em cena, pois a personagem é bem desinteressante) Heathcote (que se salva pelo carisma) e Bonham Carter (que tem uma boa atuação e uma das personagens mais aceitáveis do longa). Mas há uma atuação irritante no elenco, e é (para minha surpresa) a de Chloë Grace Moretz, que está exagerada e bastante fora de tom. A presença dela no filme foi uma decepção para mim, mas isso não é apenas culpa dela, outros fatores já citados aqui (falta de desenvolvimento, personagens caricaturais …), também ajudaram para isso.

A mistura entre suspense e comédia funciona muito bem durante boa parte do tempo, e temos ótimos exemplo disso, como vistos nas cenas em que Angelique e Barnabás se confrontam e no primeiro encontro entre os Collins. Porém há algumas cenas onde isso atrapalha, como na cena em que Barnabás Collins se encontra com os hippies, o final foi um erro, a cena era hilária e deveria ter sido deixada daquela forma, não precisava ele tê-los matado para nos lembrar que ele é um vampiro e que vampiros matam (e etc, etc, etc). Se Burton tivesse focado apenas no humor (sem exageros, é claro), talvez o filme fosse melhor.

Durante todo o filme vemos vários plots com problemas, seja no desenvolvimento ou na resolução, como no caso da personagem de Bonham Carte estar injetando sangue de vampiro nas veias, e no caso da competição comercial entre os Collins e Bouchard. Outros sequer deveriam ter existido, como no caso de Carolyn revelar-se uma lobisomem, e o do pai de David ser um ladrão. O embate entre Agelique e Barnabás (e Elizabeth, Carolyn e mãe do David) foi super mal aproveitado e sem graça, a única coisa interessante foi o efeito “boneca de porcelana” na destruição de Angelique. O final de Josette/Victoria e Barnabás foi outra coisa que não funcionou, como Victoria se transformou em Josette? Seria mais coerente mantê-la como Victoria, já que a personagem é apaixonada por Barnabás da mesma forma que Josette fora. A cena final é outra bastante dispensável, pois o filme poderia acabar com o beijo entre o casal supracitado que teria um efeito bem mais agradável (ou menos “WTF?”).

Com vários erros de roteiro e direção, mas com um apuro visual incrível, Sombras da Noite provavelmente deve decepcionar novamente a aqueles que não curtiram alguns filmes mais recentes da parceria entre Burton e Depp, e também aos que esperam um grande filme da parceria. Mas este aqui é um exemplar bastante divertido, sincero e deve agradar a quem gosta de um entretenimento leve e descompromissado.

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